O valor das coisas
Martha Medeiros
Desinformados, raramente conseguimos destacar o raro do medíocre. O valor das coisas está no conhecimento das coisas.
Outro dia estava assistindo a um programa de tevê que mostrava relíquias da dinastia Ching, especialmente vasos. Peças de valor incalculável, que não eram cedidas nem mesmo a museus, estavam confinadas numa espécie de bunker chinês, preservadas de qualquer olhar. Fiquei pensando: se alguém colocasse um vaso daqueles numa feira de artesanato ao ar livre, junto a outras quinquilharias, as pessoas talvez pagassem 40 reais por ele, não mais.
O mesmo poderia acontecer com uma gravura de Roy Liechtenstein misturada a cartoons expostos numa mostra universitária, ou com um colar do designer Antonio Bernardo pendurado na parede de uma loja de bijuterias, ou uma escultura do Aleijadinho vendida na beira da estrada junto a anjos feitos de material barato. Desinformados, raramente conseguimos destacar o raro do medíocre. O valor das coisas está no conhecimento das coisas.
Tão óbvio, e no entanto há um mundaréu de gente que satisfaz sua curiosidade bisbilhotando a vida alheia, e se contentam com isso. Estão bem informados sobre a novela, sobre a intimidade dos artistas, sobre as fofocas do seu seleto grupo de amigos, e isso é suficiente para preencher-lhes o espírito. Qualquer outra informação adicional – arte, literatura, música, filosofia – é papo de intelectual, e intelectual no sentido mais pejorativo do termo.
Só é possível valorizar aquilo que foi estudado e percebido em sua grandeza. Se eu não me informo sobre o valor histórico de uma moeda que circulava na época dos otomanos, ela passa a ser apenas uma pequena esfera enferrujada que eu não juntaria do chão. Se eu não conheço o significado que teve uma muralha para a defesa de grandes impérios, ela vira apenas um muro passível de pichação. Se eu não reconheço certos traços artísticos, um vitral de Chagall passará tão despercebido quanto o vitral de um banheiro de restaurante. Podemos viver muito bem sem cultura, mas a vida perde em encantamento.
Vale para as pessoas também. Sempre que a gente se conforma com meia dúzia de informações a respeito de alguém – signo, idade, estado civil, time, partido e profissão – perdemos a chance de admirá-lo. Gostamos de muitas pessoas, mas quantas delas a gente admira de verdade? Só aquelas que tivemos a sorte de conhecer mais profundamente.
A ignorância parcial é comum, não há como a gente armazenar milhões de informações, mas ignorância absoluta é preguiça. Faz tudo e todos parecem iguais. E a vida se torna mais fútil.
Aproveitando o assunto, fica aqui a dica dos cursos de introdução à história da arte ministrados por Clarisse Linhares e Mylene Friedrich. Dia 9 inicia uma nova turma, que estudará o Período Medieval e o Renascimento. Informações pelo e-mail encontroscomarte@terra.com.br.
Domingo, 1º de agosto de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.